domingo, 1 de novembro de 2009

:: Poema

Barulho

eco de bigband
jazz primordial
sussuro estelar quem vem na poeira dos dias
está em todo lugar
: solas de sapatos
lágrimas
cabelos
unhas
ancas
tampas
na cal metropolitana
espalha-se naturalmente
expande
continuando a criação do espaço
- talvez isso justificasse tanta saudade -
tantas diferenças e classes
tantos poréns e tantos ais
mas não nos afastemos
estamos onde estamos e a periferia vai
rasga o horizonte empurrando o pôr do sol
por isso lá é quente
verdadeiro
sorrisos e abraços inteiros
cachaça
sonho
pó.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

:: Poema


 
Premonição
 
mesmo figurando entre os primeiros
o beijo era carregado do sabor de distância
 
 
 
  

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

:: Poema



Contacto


a névoa despista e envolve o corpo
deixando todo toque torpe
contraindo músculos e osso




segunda-feira, 21 de setembro de 2009

:: Poemas

I

Sopra forte e sádico
o vento frio da tarde
que molha o feriado



II
Para L.Baptista


Versos no espelho
têm outro sabor
brincam de secretos
se revelando úmidos e discretos
na intimidade do vapor


III


as curvas que escondes
criam em mim outros mapas
sabe lá deus pra onde




:: Poema

Poemeto de consolo

Para Mariana B. Chaves


"as dores são todas iguais"
ainda assim é difícil supor
por que dói tanto em mim
a tua dor

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

::: Conto(?)


I
 
Não raro descia em Sta Cecília. Ficava perto da poesia, de lembranças bêbedas, mirava gérberas e girassóis; de quebra, flertava com o acaso.
 
II
 
Sonhou que amava. Já que amor é confuso como sonho, achou que era real. "Ami só uncê, si iela num quisé! qui amô dium é mió que amô ninhum".

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

::: Conto

I
 
Sentia-se mais tranquilo em dias cinzas e frios. Suava menos, não cerrava os olhos por causa da fotofobia e tinha desculpa para um destilado; nos tempos de fartura, um cabernet sauvignon, com esse agradava também a preta véia que insistia em aprender francês.
 
 

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

:: Poema

Meu lugar

Não reconheço meu bairro
Minhas ruas não me dizem nada
Já não encontro velhos amigos
Meus passos já não deixam lastro
A Igreja. Minha igreja já não é mais minha
O pároco se foi, os crismandos, a legião de maria
A rádio calou, os cantos já não consolam mais
A escola onde estudei, meus professores,
por onde andam meu professores
As quadras, as escadas, as tias, meu diretor, meus colegas
não os vejo mais em mim
Seu Teodoro se foi, o peixeiro não me acorda mais
O volei, o futebol, os balões
tudo ficou pra trás
Agora esse vento
esse raio de luz empoeirado
esse instante pausado que entra pela janela em meu quarto
é saudade
saudade de mim
de meu bairro.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

::: Contos

I
 
A mão no queixo denunciava possível reflexão, bela, intelectualizada, fatal ao sorrir, era sempre um tipo diferente de beleza...
 
II
 
Quando sentava em cima do pé gelado, sentia seu coração, contava os batimentos e julgava sua saúde. Pensava, triste, o que faltava realizar.
 
III
 
Acordei com grande senso de filantropia. Abracei no elevador, sorri no trânsito, distruibui trocados nos cruzamentos e paguei a padaria.
 
IV
 
Buscava abstração ou sublimação, não tinha certeza. Certo era que algo continuava muito errado, mas, de mãos atadas, só alcançava um livro.

domingo, 2 de agosto de 2009

::: Conto (?)


tudo em seu devido lugar: queijos para ratos, poeira para ácaros, papeis para traças.
sentiu-se deslocado, suspirou entediado, mirou a sala e abandonou o quarto.
 

:: Poema


cinza e rosa ao longe
o agora
agoniza no horizonte


:: Poema


silêncio no ocaso ecoa
ontem se faz presente
"tempo que voa"...


sexta-feira, 31 de julho de 2009

::: Conto

Morando longe tinha preguiça de voltar. Nenhum caminho de três possíveis lhe agradava. Já não tinha mais ânima para varar noites e trabalhar direto.
Não dava sorte no amor. O emprego ainda era, mas por um fio. Não tinha mais medo. Pudor ou Receio. Pensava na aposentadoria, faltavam 20 anos, mas sempre lhe cobraram planejamento. Sentia-se progredindo, mesmo contra toda expectativa e análise externa. Pensava, pensava e perguntava-se: o que quero mais? o que preciso mais para ser mais feliz?
Preferiu repensar mais um pouco, para não ser taxado de afobado. Acendeu um cigarro, mirou a ponta, encheu os pulmões e pensou "recapitulando, vamos lá...".

::: Conto

Procurava seu próximo passo no zodíaco. Folha de São Paulo, Metro, MetrôNews ou TVMinuto, antes de desembarcar na Barra-Funda. Decidia, assim, se se apaixonaria naquele dia, caso houvesse oportunidade, ou se assumiria postura racional.
Dizia-se ateu, outra vezes agnóstico, muitas vezes já o ouvi dizendo: "não duvido de nada. respeito todos. mas pra mim, morreu acabou." Tinha formação batista, mas desviara-se do caminho.
Não raro apaixonava-se. Quando não entendia o horóscopo - quase sempre - redobrava sua atenção, mirava todas. Por isso, quando a mensagem era clara, não hesitava.
Certa vez, viu a seguinte previsão: Aproveite, só hoje, sorte no amor e favorecimento no jogo. Animou-se, sua vida mudaria contrariando o mais verdadeiro e antigo ditado popular da humanidade.
Empolgado procurou a lotérica, arriscou sem disciplina alguma as seis dezenas. Já pensava como gastar tanto dinheiro com sua nova namorada, que ainda iria conquistar mais à noite.
Chegou cansado, porém empolgadíssimo com o sucesso que lhe aguardava. Ligou. Reservou uma dúzia e meia de rosas vermelhas argentinas. Buscou e foi entregar.
Sequer foi recebido. Taxado de louco e dispensado através de um torpedo, regressou cabisbaixo. Resolveu voltar a acreditar no ditado popular. Era isso, ficaria rico.
Ao conferir o resultado foi ao bar, encontrou um amigo antigo, divorciado, mas que retornara para esposa naquele dia e tinha ido receber uns trocos que o grupo tinha lhe rendido. Não teve dúvidas, carinhosamente como apenas um homem alcoólico saber ser, abraçou o amigo, beijou-o, disse o quanto lhe gostava e entregou-lhe o buquê rosal, para que a noite de retorno fosse mais temperada e aquecida. Garoava muito. Véu espesso de água descia e prateava a cútis negra.
Até hoje procura seus passos no zodíaco e atribui tal fracasso à nacionalidade das rosas.

terça-feira, 21 de julho de 2009

::: Conto

Os pés gelados, a mão seca, os olhos longe. O silêncio, que terrível é o silêncio. Não há mais ausência, espera, aquele olhar fixo no relógio, angústia também não há.
Tosse, tosse, tosse. Músculos se contraem. Silêncio.



domingo, 12 de julho de 2009

:: Poema

(quando nasce a saudade II)

folhas no chão
horizonte ao longe
marca salobra na face


:: Poema

Da Chuva


Alguns pingos
Sempre as mesmas gotas
Talvez
Sempre a mesma chuva
Fria, densa
Barulhenta e delicada
Ressuscitando fantasmas
Destilada
Simplesmente
Embala
Acalma


segunda-feira, 15 de junho de 2009

:: Poema


"avisa que é de se entregar, o viver"
 
Não sei do que é feita sua carne
Sei que é boa!
Largaria o parco emprego
Esta realidade insossa
E viveria de você
Mesmo porque
Todo o resto
São coisas à-toa

quarta-feira, 13 de maio de 2009

:: Poema

Esboço



O rabiscar de ideias
procura não dizer nada
passeia pela insignificância do traço
[vagueando no espaço
onde cabe tudo
e sem querer fazer
faz
recriando o mundo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

:: Poema

(quando nasce a saudade)
 
 
 
entardecer de maio
passos pela cidade
carinho de garoa na face.